Cidade Plural – Gabriel Bazt

De 05/11/2022 até 06/12/2022

Ensaio para o retrato de uma cidade plural

Poucos signos são tão icônicos para a identificação de uma pessoa quanto o seu retrato. Em circunstâncias especiais de apresentação (caso dos documentos oficiais e de outros registros formais), a fotografia do rosto pode caracterizar alguém de maneira ainda mais eficiente do que a própria imagem ao vivo do indivíduo, tomando como certo o fato de que a nossa memória e mesmo as circunstâncias particulares de visualização podem nos pregar peças e induzirem ao erro. Sabendo disso, perguntamos: e como retratar uma cidade? Como cristalizar em uma imagem aquilo que é a sua natureza, a sua identidade, as suas formas e seus modos de ser? Uma única foto seria capaz de representá-la em sua totalidade e fidelidade, registrando tanto suas virtudes quanto seus defeitos, sua história e seu potencial para o futuro?

A exposição que agora apresentamos é apenas um recorte muito específico e bastante modesto da nossa tentativa de dar uma cara a Joinville, nosso esforço de traduzir em imagens não só aquilo que a cidade mostra, mas principalmente aquilo que a cidade é. Mais do que sua paisagem ou arquitetura, mais do que suas ruas ou pontos turísticos, mais do que a extensão do ambiente urbano campo adentro (ou afora), espaço de contingência restrito ora aos seus limites rodoviários, ora às suas fronteiras simbólicas, acreditamos que o verdadeiro retrato de uma cidade é dado por sua gente. A Joinville que aparece nestes retratos – e no livro que os reúne integralmente – é, portanto, uma cidade marcada tanto pela sede do amanhã quanto pela nostalgia do passado, lugar de consensos e tensões, de sensos comuns e de exceções.

Os rostos que compõem esta Cidade Plural – o livro e a exposição – representam as fronteiras etnográficas por onde a diversidade do povo joinvilense se espalha: nativa ou adotiva, sua gente floresce em múltiplos sotaques e tons de pele, em extremos divergentes da cultura e da economia, em credos e ideologias nem sempre tolerantes entre si, em orientações e estilos de vida caleidoscópicos, ora celebrados conforme a ocasião, ora discriminados conforme a conveniência.

Nesta exposição, cada retrato recupera um pouco daquela vivacidade que as páginas do livro achatam, torna-se corpo concreto e, numa curiosa inversão de papéis, olha para o espectador que veio até aqui para vê-lo, exige dele uma reação e um posicionamento. Não é, absolutamente, um olhar neutro e soma-se a todos os outros olhares que escolhemos para representar a pluralidade da cidade, um convite ao questionamento da alteridade e à crítica das diferenças, um chamado à empatia, mas sobretudo ao desafio de observar o outro como um necessário exercício de reflexão, como forma urgente de compreendermos um pouco mais de nós mesmos.

GLEBER PIENIZ
Jornalista, curador do projeto Cidade Plural

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