Invisíveis – Gilma Mello

De 15/10/2022 até 30/11/2022

Vivemos em um mundo em que qualquer deterioração da visibilidade leva inevitavelmente a algum grau de desaparecimento. Os fatos tornaram-se cada vez mais nublados, efetivamente invisíveis e a invisibilidade que muitas vezes é sinônimo de irrelevância.

Essa deterioração se aplica a grupos de pessoas e aos lugares em que vivem. As sociedades contemporâneas, com sua priorização de grupos com base na relevância comercial, trataram sistematicamente grupos inteiros de pessoas de tal maneira que agora existem como sombras anônimas, sem substância ou peso social – pessoas que a sociedade foi erroneamente ensinada a acreditar que podem ser ignoradas sem consequências significativas. Entre esses grupos encontramos imigrantes, minorias e idosos, grupos que estão intencionalmente ou não isolados, escondidos e/ou invisibilizados de alguma forma.

As razões para tal tratamento são muitas e variadas. Alguns podem ser percebidos como uma ameaça ao status quo, enquanto outros podem ser vistos como representantes de forças inconsequentes ou, pior, pesos improdutivos para a sociedade. Talvez os idosos sejam os mais proeminentes desta última categoria e dentro deste grupo, parece que as mulheres sofrem mais do que os homens, percebidas como são por muitos, tendo sobrevivido à sua utilidade social definida pela sua capacidade reprodutiva/maternidade e como símbolos de beleza e desejo sexual.

Na série INVISÍVEIS, Gilma Mello vai direto ao cerne da questão. A série fala de deterioração, degradação e visibilidade turva, não apenas conceitualmente, mas também por meio do processo físico que ela emprega para criar suas cortinas e estampas etéreas e aparentemente frágeis – um processo que explora a degradação química e atmosférica de sucatas de ferro e cobre descartadas como inúteis lixo por consumismo desenfreado. Usando-se como um símbolo para a invisibilidade rastejante que acompanha o envelhecimento, ela incorpora seu corpo em várias das imagens como se quisesse se incluir nesse processo orgânico visível de decadência percebida. Os guarda-chuvas, criados com as suas imagens, fazem parte integrante da exposição, simbolizando tanto a importância de proteger e respeitar o processo de envelhecimento como o isolamento sentido por quem é vítima do estigma negativo associado a este processo inevitável. A série é, de fato, uma metáfora para a percepção errônea e os maus-tratos do processo de deterioração, processo que de outra perspectiva pode ser visto como uma forma de renascimento.

O contraste sutil da paleta dicromática da obra e a escolha do delicado tecido semiopaco como meio de apresentação geram obras esteticamente fluidas e pacíficas compostas por traços indeléveis que afirmam sua relevância silenciosamente, bem como a calma que acompanha qualquer deterioração gradual. Contudo, seria um grave erro confundir tal delicadeza com fraqueza ou falta de substância. INVISÍVEIS está em rebelião aberta contra a noção de que deterioração é sinônimo de falta de valor. Este trabalho representa um grito mal reprimido pela evolução de novas perspectivas reconhecendo o valor, a utilidade e a beleza e relevância inerentes a todas as formas de envelhecimento.

R. Scott MacLeay, Curador

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