Sobre as coisas que não entendemos bem – Celaine Refosco

De 15/10/2022 até 30/11/2022

Em tempos de alto fluxo de informação proporcionado pela tecnologia, assumir as coisas que não entendemos bem parece arriscado. Como podemos não entender se, na nossa mão, temos todas as respostas? O acesso é tão fácil, tão prático, bastam alguns clicks e temos soluções para tudo. Talvez a maior consequência dessa praticidade toda seja a ignorância: a preguiça de questionar respostas já prontas nos tornaram ignorantes uma vez que ganhamos tempo e perdemos processos importantes de análise, crítica, entendimento e de aceitação da incompreensão. Essas coisas que não entendemos bem são quase sempre colocadas de lado, retiramos toda a sua relevância para dar lugar ao que já é dado como certo, como se não valesse a pena o investimento de tempo e cabeça para solucioná-las.

No entanto, aqui nosso foco recai exatamente sobre essas coisas. São coisas, não precisamos necessariamente nomeá-las, nem precisamos entendê-las, o que precisamos é reconhecer a importância dessas coisas todas. As obras de Celaine Refosco nos oferecem caminhos para essa incompreensão, para aceitar que nunca saberemos tudo, que somos pequenos perante coisas muito maiores que também não precisam nos entender. A arte entra nessa categoria de coisas que não entendemos bem. A verdade é que não importa seu grau de conhecimento, o quão especialista ou leigo você seja, a arte nos dá uma quantidade infinita de possibilidades, depende do contexto, depende de quem a vê, de quem a produz, de como está apresentada, de como é observada, de como é lida… são tantas as variáveis para a arte. Aceitar que nunca poderemos esgotar essas variáveis é um começo.

A exposição não apenas nos abre para uma liberdade de questionamentos e sensações, mas tenta nos ajudar a nos permitir sentir, pensar, ver e todos os verbos que nos agradem para esse contexto. É possível se abrir para um olhar focado na arte, analisando as obras em si e como a exposição se configura. É possível uma análise do que sentimos ao nos percebermos no espaço expositivo, nos apropriando do que a artista nos entrega para uma aproximação com o eu. Em síntese, tudo é possível. Se nos permitirmos abandonar as respostas já prontas que nos são dadas, não existirão limitações para nossos questionamentos. No emaranhado das coisas que não entendemos bem, a caminhada para a incompreensão é quase tão importante quanto o destino final.

Cássia Pérez – Curadora

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